
O sonambulismo, a dupla
vista e o êxtase constituem gradações da faculdade de desdobramento da alma
ou Espírito, que possibilitam,
com o auxílio do perispírito, o
intercâmbio entre os planos físico e espiritual, duas faces de uma
só existência.
O sonambulismo é um estado
de independência da alma, mais
completo do que o sonho, que permite ao Espírito maior amplitude
ainda de suas faculdades. A palavra
sonambulismo origina-se do latim
somnus = sono + ambulare = marchar, passear. No sonambulismo,
o indivíduo, embora dormindo, levanta-se, caminha, movimenta-se
e pratica atos próprios de sua vida
habitual com relativa segurança e
perfeição, procedendo como se estivesse acordado. Entretanto, ao
despertar, geralmente, o sonâmbulo não se lembra do que fez, enquanto se encontrava nesse estado.
O sonambulismo pode ser natural ou magnético. Não há diferença entre ambos, a não ser pela
forma como se dão: um acontece
espontaneamente; o outro é provocado, artificialmente, por meio de
indução hipnótica ou magnética.
O sonâmbulo age sob a influência de sua própria alma e exprime o
seu próprio pensamento. Enquanto
estiver em transe, o sonâmbulo tem
idéias, em geral, mais precisas do
que no estado normal, seus conhecimentos são mais amplos, porque
tem livre a alma, o que lhe permite o
afloramento mais ostensivo de sua
bagagem psíquica, acumulada durante as encarnações, e que de ordinário, permanece abafada pelo corpo físico. Eventualmente, o sonâmbulo também pode se comunicar
com Espíritos. Neste caso específico, temos no sonambulismo uma
variedade da faculdade mediúnica.
O Espírito age como sonâmbulo quando, preocupado com uma
coisa ou outra, necessita fazer algo, cuja prática exige a utilização
do corpo físico. Gabriel Delanne
(1857-1926), notável pesquisador
das ciências psíquicas, narra o seguinte fato:
[...] um jovem padre que se levantava todas as noites, ia à escrivaninha, compunha sermões
e tornava a deitar. Alguns de seus
amigos [...] uma noite em que
ele escrevia, como de costume,
interpuseram um grosso cartão
entre seus olhos e o papel. Ele
não se interrompeu, continuou a
redação, e, terminada esta, deitou-se, como de hábito,sem suspeitar da prova a que fora submetido [...]. “Quando ele terminava uma página, lia-a alto, de
princípio a fim (se se pode chamar leitura a esta ação sem o
concurso dos olhos). Se lhe desagradava alguma coisa, ele a
retocava e fazia as correções, em
cima, com muita exatidão.
[...] é a visão sem os olhos. [...]
isso nos provará que há nele
uma força que seguramente o
dirige, que age fora dos sentidos, numa palavra, que a alma
vela quando o corpo dorme. Apesar dessa desenvoltura com
que o sonâmbulo age, existem riscos para ele, que podem ser prevenidos, sobretudo se for criança:
evitar camas altas, instalar grades
nas janelas, retirar do alcance objetos cortantes ou pontiagudos
que possam ferir.
Durante o transe, o sonâmbulo
pode sofrer interferência de Espíritos obsessores, por meio de técnicas hipnóticas, que influenciam
no comando da atividade mecânica do seu corpo físico. Por isso, recomenda-se também às pessoas
sonâmbulas, sejam adultos, sejam
crianças, a oração antes do sono,
com vistas a obterem a proteção dos
bons Espíritos. A prática do bem,
a vivência harmônica em família, à
luz dos ensinos do Cristo, o Evangelho no lar, também constituem
excelente terapêutica preventiva.
Seria realmente perigoso à saúde
do sonâmbulo despertá-lo durante o transe? Não há nenhuma evidência científica dessa afirmativa,
que encontramos no rol do imaginário popular. O mesmo cuidado
que temos ao acordar o não-sonâmbulo devemos ter para despertar o sonâmbulo, mormente se este
estiver em movimento. Quase todas
as pessoas, ao serem interrompidas, bruscamente, em seu sono,
têm como reação, num primeiro
momento, o susto ou a desorientação. Se porventura nos depararmos
com uma pessoa em transe sonambúlico, é recomendável direcioná - la, cuidadosamente, ao leito, sem necessidade de despertá-la, a não ser
que seja estritamente necessário.
A dupla vista ou segunda vista
ocorre quando o Espírito se desdobra, sem que o corpo esteja
adormecido. Nesse estado, a pessoa vê, ouve e sente além dos limites dos sentidos humanos, podendo, até mesmo, ter pressentimentos. Durante a ocorrência do fenômeno, o indivíduo, embora consciente, apresenta um estado físico
alterado, com o olhar vago, como
se olhasse sem ver. A faculdade, na dupla vista, é
permanente, mas não o seu exercício. Nos mundos mais elevados, a
dupla vista é faculdade permanente, para a maioria dos habitantes,
cujo estado normal pode se comparar ao dos sonâmbulos lúcidos.
A bibliografia espírita é farta
de exemplos de casos de dupla
vista, como os relatados por Kardec em A Gênese: Entrada de Jesus em Jerusalém; Beijo de Judas;
e Vocação de Pedro, André, Tiago,
João e Mateus. Outro exemplo
clássico é o relatado pelo astrônomo e escritor espírita francês, Camille Flammarion (1842-1925):
“O professor Boehm, que ensinava matemáticas em Marburg,
estando uma noite com amigos,
teve de repente a convicção de
que devia regressar à sua casa
[...] Chegado à sua morada [...]
sentia-se obrigado a mudar o
seu leito de lugar. Por mais absurda que lhe parecesse esta imposição mental, entendeu que a
devia cumprir, chamou a criada
e com auxílio dela colocou a cama do outro lado do quarto.
Feito isto, ficou satisfeito e voltou para junto de seus amigos e
acabar o serão. Despediu-se deles às dez horas, voltou para casa, deitou-se e adormeceu. Foi
despertado, durante a noite,
por grande fragor e verificou
que grossa viga tinha desabado,
arrastando uma parte do teto e
caindo no lugar que o seu leito
havia ocupado.” A segunda vista acontece, com
mais frequência, de forma espontânea do que por efeito da vontade, porém, é suscetível de desenvolver-se pelo exercício ou diante
de certas circunstâncias que põem
em perigo as pessoas, como no caso de crises, calamidades e grandes emoções. É a Providência Divina sempre a nos oferecer meios
de nos proteger e de nos fazer superar as dificuldades do caminho.
O êxtase é a emancipação da alma no grau máximo, sem, todavia, poder ultrapassar certos limites, que ela não poderia transpor
sem quebrar totalmente os laços
que a prendem ao corpo. Conforme a evolução do extático, cuja
lucidez é ainda mais acentuada,
ele pode vislumbrar faixas espirituais superiores, em que lhe é dado haurir de uma paz e de um
bem-estar inexprimíveis.9
Kardec traz um exemplo de êxtase, que sucedeu com o famoso
compositor italiano de música
religiosa, Pergolesi, cujo fato foi relatado pelo Sr. Ernest Le Nordez:
“Na sexta-feira santa Pergolesi
acompanhou a multidão. Aproximando-se do templo, parecia-
-lhe que uma calma, há muito
desconhecida para ele, se fazia
em sua alma e, quando transpôs o portal, sentiu-se como
que envolto por uma nuvem ao
mesmo tempo espessa e luminosa. Logo nada mais viu [...] e
ouviu como um concerto longínquo de vozes melodiosas,
que insensivelmente dele se
aproximava. [...]
“Mas, enquanto sua alma, arrebatada no êxtase, bebia a longos
sorvos as harmonias simples e
celestes desse concerto angélico,
sua mão, como que movida por
força misteriosa, agitava-se no
espaço e parecia traçar, mau
grado seu, notas que traduziam
os sons que o ouvido escutava.
“Pouco a pouco as vozes se
afastaram, a visão desapareceu,
a nuvem se desvaneceu e Pergolesi viu, ao abrir os olhos, escrito por sua mão, no mármore do
templo, esse canto de sublime
simplicidade, que o devia imortalizar, o Stabat Mater, que desde esse dia todo o mundo cristão repete e admira.
“O artista ergueu-se, saiu do
templo, calmo, feliz e não mais
inquieto e agitado. Mas nesse dia
uma nova inspiração se apoderou dessa alma de artista [...].” Esse aspecto sublime do fenômeno, porém, não isenta o extático dos dissabores da perturbação,
por influência de entidades inferiores, se deixar levar pela invigilância. Essa é uma das razões pelas
quais se deve julgar com muito
critério revelações espirituais que
venham por meio do extático ou
de qualquer outro médium.
Enfim, o sonambulismo, o êxtase e a dupla vista constituem
variedades de fenômenos que repousam sobre uma mesma causa
– a faculdade de desdobramento
do Espírito, que se produz graças
às propriedades e às irradiações
do fluido perispirítico.
Como vimos pela descrição dos
exemplos, a natureza espiritual do
ser humano é ainda pouco estudada e, conseqüentemente, bastante desconhecida. Pesquisadores da
área psicológica têm encontrado
no exame desses fatos a prova irrefutável da existência e da independência da alma, derrubando
mitos e superstições e levantando
o véu das leis naturais que encobrem fatos até então tidos por milagrosos ou sobrenaturais.FONTE: C,TORCHI. REFORMADOR FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA. ANO 126, Nº 2. 157 . Dezembro 2008. p. 22-23.
Nenhum comentário:
Postar um comentário