Como
nos comportamos diante de comentários sobre um deslize de alguém? Sentimo-nos
atraídos diante da crítica perniciosa? Deixamos transparecer assuntos
reservados? Frequentemente, nas conversações que costumamos manter nos círculos
de amizade, manifesta-se a tendência perniciosa de comentar o mal alheio.
Quando entra em pauta tecer referências a pessoas, parece até ser irresistível
a abordagem dos aspectos mais desabonadores das criaturas. Pior do que isso,
são os acréscimos, por conta da imaginação doentia, nas calúnias e
interpretações malévolas que se costuma fazer. O falar mal, a crítica mordaz, a interpretação
pejorativa, o comentário malicioso, o julgamento falso, a suspeita comprometedora,
a denúncia caluniosa são facetas pelas quais a maledicência se apresenta.
POR
QUE SUPERAR?
a)
O maledicente é um atormentado que se debate na sua própria condição espiritual
inferior, pois tem a visão do mundo tomada pelas pesadas lentes que carrega. Há
aqueles que se comprazem em comentar os defeitos alheios, sentem uma certa
satisfação por encontrar os outros em falta. Tal atitude é contrária a
caridade, pois a verdadeira caridade é simples, modesta e indulgente (ESE, Cap.
X item 10).
b)
A palavra malsinante nasce discreta, muitas vezes acaba por incendiar-se
perigosamente, colimando logo mais em calúnia devastadora, e acaba até
destruindo a região por onde prolifera.
c)
Por que vês tu, pois, o argueiro no olho de teu irmão, e não vês a trave no teu
olho? (Mt, 7:3) Um dos caprichos da Humanidade é ver cada qual o mal alheio
antes do próprio. Por que condenar nos outros o que desculpamos em nós? Antes
de criticar alguém, consideremos se a própria reprovação não nos pode ser
aplicada. Se nos julgamos superiores àquele que criticamos é porque ainda somos
movidos pelo orgulho, pelo amor-próprio. Eis no fundo o móvel de nossas
palavras. Comprazemo-nos na eventual supremacia de nossas qualidades,
satisfazemo-nos com o capricho do EU
SUPERIOR. A autoridade legítima
não consiste no sentimento de superioridade, mas no sentimento de sentir o
outro de igual para igual. A autoridade não consiste em se achar melhor, mas em
querer o bem sincero do outro. Geralmente criticamos no outro o que, mesmo
inconscientemente, não aceitamos em nós mesmos; neste sentido geralmente
medimos o próximo de acordo com aquilo que somos e sentimos. Aquele que é feliz
consigo mesmo, só consegue ver o bem no outro.
d)
Irmãos, não faleis mal uns dos outros. Quem fala mal de um irmão, fala mal da lei e julga a lei, já não é observador da
lei, mas juiz. (Tg 4: 11) A palestra de esclarecimento reclama a energia serena
em afirmativas incisivas, no entanto, importa verificar quais os sentimentos,
qual a emoção que estamos imprimindo às nossas palavras, pois em assim sendo,
ao invés de sermos cooperadores de Deus acabamos por ser críticos de suas
obras. Cada irmão é a essência de Deus, importa, pois não vermos a deuses só a
nós mesmos, mas enxergar a presença de Deus em cada irmão que a nós se achegar.
E Jesus soube enxergar a Deus mesmo nos mais marginalizados e excluídos da
sociedade.
e)
Há culpa em se estudar os defeitos alheios? - Se é com o fito de os cultivar e
divulgar, há muita culpa, porque isso é faltar com a caridade, se é com
intenção de proveito pessoal, evitando-se aqueles defeitos, pode ser útil ( ..
). (L. E, 903) Não é culpável a observância do mal. O erro está em fazer
observações em prejuízo do próximo. Tudo depende da intenção: Deus é justo e
julga mais a intenção que o fato (L.E, 747). Se a intenção for denegrir, por
prazer de fazê-lo, a censura é uma maldade, mas se a intenção for útil, é um
dever que a caridade manda cumprir, mas com muita cautela. E nós sabemos qual o
verdadeiro móvel de nossas ações e de nossas palavras. Não é aquilo que entra
pela boca que mancha o homem, mas aquilo que sai dele, eis o que mancha o
homem. (Mt, 15:11) Importa, pois, a qualidade dos sentimentos que nos levam a
tecer comentários, importa nosso interior perante Deus e perante nossas
consciências. Certamente que, quando imbuídos de um sentimento amoroso, não
sentiremos nenhuma satisfação diante dos defeitos alheios. É importante
"vigiar" não só nossas conversações, mas nossos sentimentos, pois
esses são mais autênticos que nossas palavras.
COMO
SUPERAR ATRAVÉS DA INDULGÊNCIA ?
1.
Tanto quanto possível busquemos extinguir esse sentimento conflitante que nos
domina e impede nossa serenidade, nossa paz íntima, buscando afastar o hábito
de criticar a quem quer que seja.
2.
Sede pois severos convosco e indulgentes para com os outros. (ESE, Cap. X item
16) Não se deve esquecer que a indulgência para com os defeitos alheios. É uma
das virtudes compreendidas na caridade. Antes de censurar as imperfeições dos
outros, vede se não podem fazer o mesmo a vosso respeito (...). (L. E, 903)
Quando vier a tentação de acusar ou apontar os defeitos alheios, lembremo-nos
das nossas próprias limitações e das nossas próprias necessidades.
Coloquemo-nos no lugar do outro e avancemos firme na resolução de amá-lo, de
elevar sempre sua imagem diante de terceiros.
3.
A indulgência não vê os defeitos alheios, se os vê, evita comentá-los e
divulgá-los. Oculta-os, pelo contrário, evitando que se propaguem, e se a
malevolência os descobre, tem sempre uma desculpa à mão para os disfarçar ( ..
). (ESE., Cap. X, item 16) Ao invés de evidenciar erros e falhas em nosso lar,
transformemos o ambiente através de esclarecimentos tranquilos e objetivos.
Nessas ocasiões, as palavras suaves, o coração indulgente exercem uma atuação
benfazeja, qual lenitivos para a alma.
4.
De acordo com mensagem de Irmão X, denominada "Os Três Crivos",
analisemos se nossas palavras passam primeiramente pelo crivo da verdade,
depois pelo crivo da bondade, e, por fim, pelo crivo da necessidade.
FONTE: Federação Espírita do Estado de São Paulo, REFORMA
INTIMA, Curso básico de espiritismo, São Paulo. 2 ed., 2014.

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