Já
iniciando o Terceiro Milênio, vivemos, porém, a cultura da violência.
Sucedem-se genocídios, ações terroristas, movimentos discriminatórios e
guerras. A violência passa pela família, pelos ambientes de trabalho, no
atendimento aos serviços públicos, no trânsito. A agressão, a vingança, marcam
o dia-a-dia de nossas vidas. Os jovens já são socializados em padrões de
violência, pois essa cultura de agressão é amplamente divulgada e reproduzida,
pelos meios de comunicação. Como reagir a essa "cultura de
violência"? Pela cultura da não-violência, que consiste em aprender a
"não reagir com violência a uma atitude violenta."
COMO
A VINGANÇA SE MANIFESTA?
A
vingança se manifesta em nosso íntimo como uma reação carregada de forte emoção,
por uma ofensa ou agressão dirigida a nós ou mesmo a outrem. São formas de
revide em discussões acaloradas, ou propósitos violentos diante de crimes
cometidos a familiares. Em geral, são as emoções muito fortes de ódio que levam
ao desequilíbrio e que consequentemente desencadeiam lutas corporais,
discussões, e até mesmo atos criminosos. A vingança é um dos últimos resíduos
dos costumes bárbaros, que tendem a desaparecer dentre os homens (..) é um
índice seguro do atraso dos homens que a ela se entregam, e dos Espíritos que
ainda podem inspirá-la. Embora não sejam as ocorrências de vingança revestidas
de tanta crueldade como nos tempos bárbaros, elas ainda são muito frequentes em
nossos dias. Toda falta de equilíbrio, de domínio sobre si mesmo e de seus atos
é indício de atraso do Espírito.
POR
QUE SUPERAR?
1)
Para não sofrermos. O ódio e o rancor provocam tristeza em quem os sente. A
misericórdia, ou seja, o renunciar à vingança, é um sentimento de libertação,
portanto de alegria. Querer vingar-se é estar preso, é ser escravo de si mesmo.
2)
Como podemos galgar degraus na marcha evolutiva como podemos aspirar à
espiritualidade se ainda estamos imantados a outros indivíduos por correntes de
ódio?
3)
Se o outro errou, cabe no entanto a nós evitar manchar nosso perispírito para
não sermos infratores às leis de causa e efeito, de ação e reação, para não
fazermos ao próximo o que não gostaríamos que alguém nos fizesse.
4)
O espírita tem ainda mais um motivo para ser misericordioso: os inimigos
desencarnados. A morte pode livrá-lo da presença material apenas, mas estes
podem continuar a manifestar seu ódio, gerando assim obsessões e subjugações, a
que tantas pessoas estão expostas... não se pode apaziguá-los senão pelo
sacrifício dos maus sentimentos, ou seja, pela caridade. (E.S.E, Cap. XII item
6)
COMO
SUPERAR? ATRAVÉS DA MISERICÓRDIA!
Primeiramente,
mantendo-nos vigilantes, no sentido de manter a harmonia e o equilíbrio
interior, evitando deixar envenenar-se por pensamentos insistentes de revide.
Lembremos que a justiça divina está acima da justiça dos homens. Sede, pois,
misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso. (Lc, 6:36) A
misericórdia consiste na própria virtude do perdão. Deixar de julgar, de odiar,
é essa a definição de misericórdia. É a virtude que triunfa sobre o
ressentimento, sobre o ódio justificado por nós mesmos, sobre o rancor, o
desejo de vingança ou de punição. Trata-se de vencer o ódio em nós, se não
pudermos vencer o ódio no outro. Por
isso nos recomenda Jesus: Amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos
odeiam, e orai pelos que vos perseguem e caluniam, para serdes filhos de vosso
Pai, que está nos céus, o qual faz nascer o seu sol sobre bons e maus, e vir
chuva sobre justos e injustos. (Mt, 5:44)
A misericórdia é uma virtude em si mesma, ser misericordioso como o Pai
é misericordioso é vivenciar um sentimento universal sem distinção, sem
discriminação. Esse sentimento universal aumenta a medida em que diminuímos a
superestima por nossa subjetividade. Se a misericórdia é virtude, ela deve
valer por si mesma, e não subjetivamente. Aquele que só é justo com os justos,
misericordioso com os misericordiosos, não pode ser considerado nem justo nem
virtuoso. A virtude não pode ser considerada um mercado de trocas; se assim
fosse deixaria de ser virtude. Reconcilia-te com teu adversário enquanto estás
a caminho com ele (..). (Mt., 5:25) Que
possamos agir hoje de forma a nada termos de nos arrepender amanhã. Se estás
fazendo a tua oferta perante o altar, e te lembrar que teu irmão tem algo
contra ti, deixa ali tua oferta diante do altar e vai te reconciliar primeiro
com teu irmão (..) (Mt, 5,23-24) Se alguém vos ferir na face direita,
oferecei-lhe também a outra. (Mt., 5:39) Para o orgulhoso essa frase pode
parecer uma covardia, no entanto exige muito mais coragem em suportar um insulto que em se
vingar. Jesus não proibiu com isso a defesa, mas sim a vingança; Temos uma
tendência muito grande a discriminar, a julgar e mesmo odiar os infratores da
lei. Jesus não proibiu que reprovássemos o mal, pois ele mesmo o fez e em
termos enérgicos, porém, ensinou que a autoridade da censura está na razão da
autoridade moral (ESE. Cap. X, item 11). É assim que na passagem da mulher
adúltera (Jo., 8:3-11) ao dizer: "Quem de vocês não tiver pecado, que
atire a primeira pedra", Jesus remete para a comunidade a responsabilidade
pelo que acontece à mulher faz cada um olhar para dentro de si e ver que não
está em condições de dizer que nada tem a ver com a falta alheia.
Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia. (Mt,
5:7) Além de ser a virtude do perdão e de renúncia ao revide, a misericórdia
implica necessariamente em brandura e pacificação, molduras que ornamentam os
traços nítidos do perdão e da tolerância. A misericórdia só existe se
acompanhada de brandura, ou seja, um estado de equilíbrio, de paz interior, que
não se deixa abalar, mesmo em momentos de conflito. A brandura é a virtude da
flexibilidade, da adaptabilidade, do desapego. É assim que a brandura e a doçura
em relação aos infortunados tornam-se bondade; em relação aos culpados,
tornam-se misericórdia. No entanto, se ainda não conseguimos o amor aos
inimigos como Jesus nos ensinou, cessemos ao menos de odiar. Façamos o bem com
o menor mal possível ao outro. Se são felizes os misericordiosos que combatem o
mal sem ódio no coração, sejamos, pois, misericordiosos também para conosco
mesmos.
FONTE: Federação Espírita do Estado de
São Paulo, REFORMA INTIMA, Curso básico de espiritismo, São Paulo. 2 ed., 2014.

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