terça-feira, 16 de junho de 2020

VINGANÇA E MISERICÓRDIA - ANO 01 - EDIÇÃO 10 - DEZEMBRO DE 2019




Já iniciando o Terceiro Milênio, vivemos, porém, a cultura da violência. Sucedem-se genocídios, ações terroristas, movimentos discriminatórios e guerras. A violência passa pela família, pelos ambientes de trabalho, no atendimento aos serviços públicos, no trânsito. A agressão, a vingança, marcam o dia-a-dia de nossas vidas. Os jovens já são socializados em padrões de violência, pois essa cultura de agressão é amplamente divulgada e reproduzida, pelos meios de comunicação. Como reagir a essa "cultura de violência"? Pela cultura da não-violência, que consiste em aprender a "não reagir com violência a uma atitude violenta."


COMO A VINGANÇA SE MANIFESTA?

A vingança se manifesta em nosso íntimo como uma reação carregada de forte emoção, por uma ofensa ou agressão dirigida a nós ou mesmo a outrem. São formas de revide em discussões acaloradas, ou propósitos violentos diante de crimes cometidos a familiares. Em geral, são as emoções muito fortes de ódio que levam ao desequilíbrio e que consequentemente desencadeiam lutas corporais, discussões, e até mesmo atos criminosos. A vingança é um dos últimos resíduos dos costumes bárbaros, que tendem a desaparecer dentre os homens (..) é um índice seguro do atraso dos homens que a ela se entregam, e dos Espíritos que ainda podem inspirá-la. Embora não sejam as ocorrências de vingança revestidas de tanta crueldade como nos tempos bárbaros, elas ainda são muito frequentes em nossos dias. Toda falta de equilíbrio, de domínio sobre si mesmo e de seus atos é indício de atraso do Espírito.

POR QUE SUPERAR?

1) Para não sofrermos. O ódio e o rancor provocam tristeza em quem os sente. A misericórdia, ou seja, o renunciar à vingança, é um sentimento de libertação, portanto de alegria. Querer vingar-se é estar preso, é ser escravo de si mesmo.
2) Como podemos galgar degraus na marcha evolutiva como podemos aspirar à espiritualidade se ainda estamos imantados a outros indivíduos por correntes de ódio?
3) Se o outro errou, cabe no entanto a nós evitar manchar nosso perispírito para não sermos infratores às leis de causa e efeito, de ação e reação, para não fazermos ao próximo o que não gostaríamos que alguém nos fizesse.
4) O espírita tem ainda mais um motivo para ser misericordioso: os inimigos desencarnados. A morte pode livrá-lo da presença material apenas, mas estes podem continuar a manifestar seu ódio, gerando assim obsessões e subjugações, a que tantas pessoas estão expostas... não se pode apaziguá-los senão pelo sacrifício dos maus sentimentos, ou seja, pela caridade. (E.S.E, Cap. XII item 6)

COMO SUPERAR? ATRAVÉS DA MISERICÓRDIA!

Primeiramente, mantendo-nos vigilantes, no sentido de manter a harmonia e o equilíbrio interior, evitando deixar envenenar-se por pensamentos insistentes de revide. Lembremos que a justiça divina está acima da justiça dos homens. Sede, pois, misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso. (Lc, 6:36) A misericórdia consiste na própria virtude do perdão. Deixar de julgar, de odiar, é essa a definição de misericórdia. É a virtude que triunfa sobre o ressentimento, sobre o ódio justificado por nós mesmos, sobre o rancor, o desejo de vingança ou de punição. Trata-se de vencer o ódio em nós, se não pudermos vencer o ódio no outro.  Por isso nos recomenda Jesus: Amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos perseguem e caluniam, para serdes filhos de vosso Pai, que está nos céus, o qual faz nascer o seu sol sobre bons e maus, e vir chuva sobre justos e injustos. (Mt, 5:44)  A misericórdia é uma virtude em si mesma, ser misericordioso como o Pai é misericordioso é vivenciar um sentimento universal sem distinção, sem discriminação. Esse sentimento universal aumenta a medida em que diminuímos a superestima por nossa subjetividade. Se a misericórdia é virtude, ela deve valer por si mesma, e não subjetivamente. Aquele que só é justo com os justos, misericordioso com os misericordiosos, não pode ser considerado nem justo nem virtuoso. A virtude não pode ser considerada um mercado de trocas; se assim fosse deixaria de ser virtude. Reconcilia-te com teu adversário enquanto estás a caminho com ele (..). (Mt., 5:25)  Que possamos agir hoje de forma a nada termos de nos arrepender amanhã. Se estás fazendo a tua oferta perante o altar, e te lembrar que teu irmão tem algo contra ti, deixa ali tua oferta diante do altar e vai te reconciliar primeiro com teu irmão (..) (Mt, 5,23-24) Se alguém vos ferir na face direita, oferecei-lhe também a outra. (Mt., 5:39) Para o orgulhoso essa frase pode parecer uma covardia, no entanto exige muito mais  coragem em suportar um insulto que em se vingar. Jesus não proibiu com isso a defesa, mas sim a vingança; Temos uma tendência muito grande a discriminar, a julgar e mesmo odiar os infratores da lei. Jesus não proibiu que reprovássemos o mal, pois ele mesmo o fez e em termos enérgicos, porém, ensinou que a autoridade da censura está na razão da autoridade moral (ESE. Cap. X, item 11). É assim que na passagem da mulher adúltera (Jo., 8:3-11) ao dizer: "Quem de vocês não tiver pecado, que atire a primeira pedra", Jesus remete para a comunidade a responsabilidade pelo que acontece à mulher faz cada um olhar para dentro de si e ver que não está em condições de dizer que nada tem a ver com a falta alheia. Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia. (Mt, 5:7) Além de ser a virtude do perdão e de renúncia ao revide, a misericórdia implica necessariamente em brandura e pacificação, molduras que ornamentam os traços nítidos do perdão e da tolerância. A misericórdia só existe se acompanhada de brandura, ou seja, um estado de equilíbrio, de paz interior, que não se deixa abalar, mesmo em momentos de conflito. A brandura é a virtude da flexibilidade, da adaptabilidade, do desapego. É assim que a brandura e a doçura em relação aos infortunados tornam-se bondade; em relação aos culpados, tornam-se misericórdia. No entanto, se ainda não conseguimos o amor aos inimigos como Jesus nos ensinou, cessemos ao menos de odiar. Façamos o bem com o menor mal possível ao outro. Se são felizes os misericordiosos que combatem o mal sem ódio no coração, sejamos, pois, misericordiosos também para conosco mesmos. 


FONTE: Federação Espírita do Estado de São Paulo, REFORMA INTIMA, Curso básico de espiritismo, São Paulo. 2 ed., 2014.

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